NOSSA GENTE: O PROFESSOR E POLÍTICO LÉZIO SATHLER

NOSSA GENTE: O PROFESSOR E POLÍTICO LÉZIO SATHLER

“Colatina é uma cidade muito especial, que escolhi para viver e morar. Tem uma formação popular, um povo de miscigenação bastante profunda, a tradição, a fama de gente trabalhadora, que produz, que gera, que cria. Basta ver os parques industriais e comerciais que nós temos. A cidade dá um show de comércio e as indústrias estão aí demonstrando isso. É nesse espaço onde está a grande virtude daqui. Muita coisa pode ser feita, desenvolvida e aperfeiçoada, para gerar emprego e renda, pela sua topografia, pelo seu clima, pela sua gente.

É uma cidade muito acolhedora, tem esse veio forte de acolhimento. Mostra nos olhos, nas faces, o jeito de ser. Nos momentos de dificuldade, de flagelo, os colatinenses se unem, se agregam. Tem esse lado amoroso e cativante do povo. Às vezes eu converso com pessoas recém-chegadas na cidade e elas falam, citam isso, que o povo é bom de trabalhar, de conviver nas diferentes faixas de atividades laborais ou de convivência, lazer, recreação. É um povo amável. A cidade é um pouco fruto do que nós vivemos no passado recente, que construímos. Aqui é a minha terra, do meu coração”.

Foi amor à primeira vista por Colatina. Natural de Lajinha, uma pequena cidade mineira da região da Serra do Caparaó – que faz divisa com o Espírito Santo, Lézio Gomes Sathler fincou os pés nas terras colatinenses e nunca mais saiu. E aqui, um do quatro filhos homens dos agricultores Paulo de Oliveira Sathler e de Maria Gomes, nascido em 2 de setembro de 1951, virou professor, advogado e administrador de empresa.

Lézio contribuiu diretamente para a democratização do país e para a conscientização social e política de uma grande geração de jovens, participando ativamente de movimentos sociais em defesa da democracia. Ampliando seu prestígio em âmbito nacional, tornou-se político, deputado federal constituinte e lutou contra a ditadura.

Ele cresceu na cidadezinha do interior, frequentando uma igreja evangélica, e foi na comunidade muito religiosa que traçou o seu destino, que o levaria ao cenário político nacional nos anos 80. Ali, sem saber, ele descobriu o rumo que queria tomar em sua vida, aprendeu os primeiros passos da importância da cidadania, participando do movimento jovem, e começou a escrever sua história. Aliás, muitas histórias, desenhando sua trajetória, fazendo seu trabalho motivado pelas emoções e impulsionado pelo desejo de mudança.

“Eu nasci num ambiente familiar e de uma comunidade muito religiosas, de participação. Ainda no colo da minha mãe eu já participava de teatro de histórias de Natal e de dia das Mães, essas coisas todas em igreja. Brincava muito como toda criança brincava naquela época que tinha mais liberdade na rua, com muitas outras brincadeiras”, recorda.

Chegada em Colatina

“Minha chegada em Colatina ocorreu em 1972, com 21 anos. Eu estava indo de Lajinha para o Rio de Janeiro estudar, porque eu queria ser veterinário, e minha cidade só tinha escola até o ensino médio. Aí, eu fui para Cachoeiro de Itapemirim e lá falaram do curso de Direito de Colatina; e eu então decidi vir para cá fazer o vestibular da Fadic. Consegui pegar uma carona para Aimorés (MG), que é bem perto daqui, e de lá para cá eu vim de trem. Fiquei hospedado na casa de uma família da minha igreja e depois numa pensão, e comecei a trabalhar. Meu primeiro emprego foi de locutor na Rádio Difusora, que não deu certo porque o meu amigo Alcenir Coutinho ganhou o concurso. Eu fui bem recebido na cidade e por isso me adaptei bem”, conta.

Lézio foi estudar na Fadic e imediatamente começou a dar aula. Como estudante de Direito, estagiou no escritório do advogado e seu professor de Sociologia, Imaim Lacerda, formou em 1977 e advogou por cerca de três anos. Depois, resolveu parar porque descobriu que advogar não era o que queria. Decidiu, então, estudar Administração de Empresas na Faculdade de Ciências Econômicas (Facec), mas sem atuar na profissão.

Professor

Lézio coleciona muitas histórias dos oito anos que atuou como professor de Física, Matemática e Organização Social e Política Brasileira (OSPB) nas escolas Conde de Linhares, Rubens Rangel e no Colégio Marista. “Foi uma época de muito aprendizado com os alunos. Toda atividade, em algum momento, você convive com emoções de conquistas, de vitórias. Eu era um professor muito articulador, identificado com a juventude e com os alunos, e procurava despertar neles o senso crítico, a capacidade de refletir sobre a sociedade e participar das mudanças sociais. Em plenos anos 70, nós íamos a campo com eles fazer pesquisas, levantar as questões sociais”.

Ele explica que procurava movimentar os jovens e se envolvia muito. “Fizemos os primeiros simulados públicos daqui, os cursinhos, também promovíamos eventos esportivos e muitas brincadeiras na rua nos finais de semana. Fazíamos excursões para conhecer grandes projetos, ir nas praias, ir em Foz do Iguaçu (PR) e até no setor de desembarque dos trens de minério, na área da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Eram passeios e turismo, mas também informação sobre economia e sustentabilidade”.

O professor conta que levava os alunos para assistirem a sessões da Assembleia Legislativa do Estado (Ales), em Vitória, e da Câmara Municipal de Colatina. “A gente tentava ensinar o melhor para eles. Pedíamos para eles levarem revistas e jornais para a sala de aula para debater sobre temas importantes. Fomos numa comunidade carente e abrimos o primeiro posto de atendimento de saúde de Colatina. Pintamos uma casinha de madeira e colocamos alguns equipamentos para atendimento comunitário, com apoios de alguns médicos. Por várias vezes fizemos pesquisas nas comunidades carentes e depois promovemos debates. Também realizamos o primeiro seminário sobre drogas de Colatina, com o professor de Medicina Legal da Fadic e juiz de Direito, Paulo Copolillo. Na Semana da Pátria nós trouxemos diversas autoridades para debater sobre a anistia, a liberdade democrática, os direitos fundamentais e a democracia”, conta.

Nas faculdades de Colatina ele também tem história. Na Fadic, participou da implantação do Diretório Acadêmico e lembra que foi vetado de ser orador no quinto ano do curso porque era líder estudantil. Na Facec, também foi do Diretório ao lado de colegas como Luís Antonio Polese, Mário Serafini e outros. Ele conta que eles criaram um jornal, que deu o que falar. “Na época eu estudava na Facec, mas também substituía os professores Jussara Richa e José Carlos em Estudos de Problemas Brasileiros (EPB) e Sociologia, na Faculdade de Filosofia (Fafic), que ficava ao lado. E aí o jornal divulgou uma matéria sobre o preço da mensalidade escolar e provocou um problemão. Foi uma confusão danada”.

Mesmo com os muitos perrengues que passou, ele diz que o período no qual estudou e deu aula foi muito rico. “Em muitas das atividades que nós desenvolvíamos nas escolas com os alunos havia questionamentos dos pais. Em cada ato desses a gente teve uma pitada forte de emoção de ver as coisas acontecendo, mas as barreiras eram vencidas também. Por onde passei como professor e como estudante, eu saí não como um derrotado, mas como um vencedor, com a certeza que eu tinha plantado uma semente”.

Cidadania

Logo que chegou em Colatina, mesmo estudando e dando aula, Lézio também aliou suas funções à militância nos movimentos sociais, pois, segundo ele, não conseguia ficar longe de participar das discussões de questões importantes do país. “Acabei me ligando muito a movimentos políticos e sociais e não dava mais para parar, porque naquele momento a juventude precisava se engajar”.

Ele conta que em Lajinha estudou num colégio que tinha grêmio estudantil e que já no ensino fundamental tornou-se o diretor do grêmio. “No ginásio nós tínhamos o jornal da escola com todas aquelas limitações, feito com mimeógrafo à álcool e tinta, quase que escrito à mão. Depois, eu fui para Alto Jequitibá (MG) estudar o Científico e lá me envolvi em atividades culturais. A própria escola também estimulava isso. E tudo isso foi crescendo dentro de mim e me transformou”.

Já em Colatina, Lézio falou que havia também os movimentos na periferia, estudantis e políticos. “Morando aqui, eu passei num concurso do MEC (Ministério de Educação) na área de Física e fui morar em Recife (PE) por dois anos, e lá eu participei dos movimentos em defesa da democracia com estudantes e grandes lideranças nacionais da época, entre eles Dom Hélder Câmara, Jarbas Passarinho, Jarbas Vasconcelos, Fernando Lyra e Marcos Freire. E tudo isso fez com que eu continuasse me envolvendo cada vez mais na luta em favor da democracia”. Lézio também participava de um grupo que se reunia quinzenalmente nas comunidades de Colatina, juntamente com outras lideranças de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica, para debater e procurar soluções para as questões sociais.

Carreira política

Lézio começou a se engajar na política partidária efetivamente nos anos 80. “Nós fundamos a ala jovem do partido do então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que era oposição à ditadura. Eu era uma liderança jovem e havia uma grande ansiedade, uma busca nacional, estadual e municipal de mudança da situação. Em 1982, eu, os médicos Tadeu Giuberti e Sérgio Ceotto, e o comerciante Ivanildo Zanotelli criamos um grupo político. Eu, Tadeu e Sérgio nos lançamos candidatos a prefeito de Colatina, e o Tadeu ganhou. Com a união em todo o Estado e, como de praxe, na articulação política de avaliações e de motivações, também conseguimos eleger o primeiro governador pós-ditadura, o Gerson Camata”.

Ao assumir o governo, Camata o convidou para assumir a diretoria Geral do Detran, onde ele criou dois grandes projetos, com projeção nacional, o “Detran sobre Rodas” e o “Detran nas Escolas”. Em 1986, Lézio foi eleito deputado federal, entre os 10 deputados e três senadores capixabas para participar da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) e elaborar a Constituição. Nesse mesmo ano saiu do MDB e filiou-se ao então recém-criado Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) do Espírito Santo. “Politicamente eu sou de centro. Eu participei da Fundação do PSDB de Colatina, do Espírito Santo e do país junto com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso (FHC) e outros grandes líderes. Coordenei três campanhas de presidência da República aqui no Estado; a de Mário Covas e as duas de FHC”, define.

Em 1990 Lézio não se reelegeu e tornou-se suplente na Câmara. Em 1991, assumiu a diretoria administrativa da Telest, em Vitória. Em 1993, assumiu o cargo de deputado no lugar de Paulo Hartung, que fora eleito prefeito de Vitória. Em 1994, decidiu encerrar sua participação na vida política parlamentar. Já no Estado assumiu diversos cargos públicos. Foi novamente diretor do Detran, depois assumiu a Secretaria da Casa Civil do Governo do Estado e a Delegacia Regional do MEC.

Diversão

“A rapaziada se divertia muito aqui. Fiz muitas e ótimas amizades; amigos que preservo até hoje. Muitos que a gente se divertia e que participavam das lutas juntos. Eram peladas de futebol, no Marista e na Associação do Banestes, com Luís Antonio Polese, Luís Antonio Pretti, Sandro Lima, Toninho Costa, Betinho, entre outros. Também tínhamos times de voleibol na AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), jogando com os irmãos Zito e Idelzito dos cinemas, os irmãos Expedito e Arnaldinho Costa, e ainda Taquinha, Banha e outros. Era uma época efervescente e a turma se divertia muito com teatro também. Com nosso saudoso pintor Filogônio Barbosa e outros companheiros nós fazíamos teatro nas carrocerias de caminhão e em festas de comunidade”.

Vida hoje

A vida que Lézio leva hoje é em um lugar onde muitos sonham, pedem a Deus, para morar. É no sítio Santa Helena, a poucos quilômetros de Colatina, em meio a matas e rodeado de animais e muitas nascentes, que ele mora a mulher Deuzi e é o ponto de encontro dos filhos Débora, Dante, Sofia e Elias, e também do neto Higor e dos amigos.

Mas a vida de Lézio é bastante movimentada, pois é ele quem administra tudo numa área de mais de 400 hectares, onde cria 300 cabeças de gado leiteiro, bezerros e tourinhos, além de galinhas para a produção de ovos. E em breve vai realizar mais um de seus sonhos, que é a recuperação das suas 13 nascentes, em um projeto de parceria com a Fundação Renova. “Da minha família, eu sou o que mais se identifica com a vida rural. Aliás, em alemão, o meu sobrenome quer dizer ‘celeiro’, que tem tudo a ver comigo. Eu gosto de roça, de terra e tudo tem seu tempo. Sou uma pessoa simples, nasci, cresci e convivi num lar simples. Vivo minha vida aqui do jeito que gosto”.

Ele tem feito da leitura na roça uma de suas opções de lazer. “Sou um cara sedento e faminto por livros. Devoro livros. Estou vivendo um período mais em casa, e aí eu bebi e comi tudo o que eu podia ler. Gosto de ler muito as histórias dos grandes líderes, dos locais aos internacionais, e também sobre política e religião. Acompanho diariamente o cenário político em todas as esferas, e já sou um especialista em geopolítica mundial. Tenho até uma biblioteca, com muitas obras, inclusive as da época de minha participação em Brasília”.

Lézio diz que tem preocupação com a juventude de hoje, pois tem dois filhos, de 19 e 21 anos. “As ferramentas estão disponíveis aí nas redes sociais, na mídia, mas elas precisam ser bem utilizadas. O jovem precisa participar e discernir, saber do bem viver. Muito da violência nasce da ausência dos grandes debates, de ir fundo nas leituras, de ler muito para aprender. Os conflitos sempre existiram e a gente tem que lutar. Vemos hoje a ausência de debates, estamos vivendo num mundo muito parecido como naquela época da ditadura, pois muito da ignorância da nossa sociedade hoje é devido à falta de debates”.

Para ele, com o conhecimento e a velocidade da informação e das transformações, os jovens esclarecidos, com consciência crítica bastante aguçadas, vencerão, trilharão um caminho, quer na empresa, quer na escola, quer na vida pessoal, o estágio de felicidade, do bom viver, de menos violência. “Há necessidade de gritar, levantar a voz, participar, mostrar o conhecimento, ir fundo nas leituras. Vamos ler muito. Precisamos ler, ler e ler”.

Informações à Imprensa:
Assessoria de Comunicação – PMC
Eduardo Candeias / Katler Dettmann / Maria Tereza Paulino
(27) 3177-7045
imprensa@colatina.es.gov.br
Texto: Maria Tereza Paulino
Foto: Gabriel Ferreira

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