NOSSA GENTE: O PEDREIRO ABÍLIO FERRARI

NOSSA GENTE: O PEDREIRO ABÍLIO FERRARI

Abílio Ferrari Pereira, 93 anos, passou a metade de sua vida dedicado a uma profissão que realiza o maior sonho das famílias. Perdeu a conta de quantas casas construiu como pedreiro, numa época que havia escassez de engenheiros civis no país.

Por sete anos, antes de começar a trabalhar com o pai Hermenegildo, ele foi mandado pela mãe a ajudar a irmã Eulália a bordar toalhas; mas depois, quando tomou gosto pela construção de casas, não parou mais. Foram centenas feitas por ele em Colatina.

Foi acordando bem cedinho para acompanhar o pai no dia a dia que, aos 15 anos, aprendeu a fazer reboco, antes de lidar com a dureza de carregar tijolos, cimento e outros materiais de construção, levantando paredes, assentando pisos e fazendo acabamentos. “Perdi a conta de quantas eu fiz nos quase 50 anos que trabalhei. Muitos lugares da cidade têm as marcas das minhas mãos. Aprendi com meu pai, que fazia de tudo um pouco. Além de pedreiro, ele era carpinteiro, barbeiro, ferreiro, e até fazia instrumentos musicais”, recorda Abílio.

Ele explica que, na época, não existia engenheiro civil formado e que eram os pedreiros que assumiam a obra como construtores, fazendo o que aprendiam na prática. “Na minha família, eram pedreiros, meu pai, eu, meus irmãos Generoso e Ivo, e também o meu cunhado Mário Dalla-Bernardina. Aqui em Colatina tinham muitos pedreiros e ninguém ficava sem serviço. Lembro do Fiori Siqueira, do Ludovico Dalla-Bernardina e do Dionísio Carne Seca, entre outros. O Ludovico foi um dos construtores da Catedral do Sagrado Coração de Jesus. Tinhas várias olarias, entre elas a do meu cunhado Mário e a dos Simonassi. A gente usava os cimentos das marcas Cauê e Nassau”.

Abílio, entretanto, fazia o que podia para ganhar dinheiro e não vivia só da renda que vinha das construções. Nas horas vagas, sempre estava procurando outras alternativas para melhorar suas condições financeiras. Ele conta que vendia de tudo que via pela frente. Saía do bairro Sagrado Coração de Jesus, onde já morava, e ia ao bairro vizinho, Vila Nova, pegar doce e vender no centro da cidade. Também ia ao bairro Vila Lenira para buscar verduras e frutas para vender na rua.

A casquinha japonesa

O pedreiro aposentado conta, rindo muito, de uma história que aconteceu com ele na época da Segunda Guerra Mundial, quando, ainda muito jovem, revendia um tipo de doce chamado “casquinha japonesa”, parecido com uma casquinha de sorvete, para um homem cujo nome ele não se recorda. “Todo mundo gostava, porque era muito gostosa mesmo, e eu vendia de 100 a 200 por dia. Para vender, eu gritava: olha a casquinha japonesa! ”.

E aí, segundo ele, juntava muita gente em sua volta para comprar. “Eu vendia em frente da delegacia, que ficava onde é hoje os Supermercados Três Irmãos. Aí um dia, um soldado, muito irritado, falou para que eu, daquele dia em diante, não gritasse mais ‘casquinha japonesa’ e sim ‘casquinha carioca’. E assim foi. Eu passei então a gritar: olha a casquinha carioca!”.

O que o jovem Abílio não sabia é que o Japão fazia parte do Eixo, uma aliança com a Alemanha e a Itália, e que lutava contra o resto do mundo (foi derrotada), os chamados Países Aliados, entre eles, o Brasil. Já o doce, ele não lembra da receita e até se arrepende de não ter procurado aprender, mas disse que parecia um funil e era feito de trigo e açúcar.

Casa própria

“Vim morar em Vila Nova aos 18 anos e depois na Fazenda Vitali, onde ficamos por 13 anos. Trabalhei na Fazenda de Pedro Vitali puxando juntas de boi. A fazenda era bem grande, ia até no bairro Acampamento (bairro Luís Iglesias). Depois fomos para Maria Ismênia e, de lá, viemos para cá onde moramos agora eu, minha esposa e meus filhos Alonso e Adriana, além dos meus três netos. Paguei 70 cruzeiros por este lote aqui onde moro, fiz a nossa casa e trouxe meus pais e meus irmãos para morarem comigo. Quando comprei este lote, ele já não era mais do seu Pedro Vitali e sim de um homem conhecido como Baiano. Fiz a casa bem alta, porque aqui só tinha barro”.

Outras lembranças são as duas lagoas que foram aterradas para dar lugar ao Colégio Marista e do trem de passageiros que passava dentro da fazenda, que subia às 10 horas para Minas Gerais, descendo de Minas às três horas da tarde.

As crianças e os jovens, segundo ele, se divertiam nas tardes e nos domingos jogando bola nos campinhos da cidade. “Joguei muita bola no Estádio, que antes era um campo comum, assim como outros que existiam pela cidade. Em frente da antiga estação ferroviária, que hoje é o Terminal Central de ônibus, tinha o campo do time do Colatinense. Depois foi criado o Estádio Municipal como conhecemos hoje. Tinha jogadores bons na época, como Luisinho Prestes, Clóvis Fachetti, Xirú, Tininho (que jogava muito), Amadeu Giuberti, Valtinho, Onor Tavares, Lastênio Pereira, Tatinho Bandeira, Sabonete, Maia Bandeira, Nico Torezani e Raquelo Vitali”.

As lembranças são inúmeras: de quando a estação ferroviária funcionava próxima à Praça Belmiro Teixeira Pimenta, e da retirada dos trilhos do centro da cidade, em 1975. E também de quando o Tiro de Guerra funcionava em frente da Catedral, e ainda de vizinhos como Afonso Linhalis, Tarzan e a mulher Lurdes, os Grassi, os Manola, os Guerra, Elpídio Ferreira da Silva (pai do médico Elpídio que ainda mora no bairro), entre outros.

Casamento

O casamento com Olga Dalla-Bernardina, filha do casal Roque e Adelina Denarti, aconteceu em 1965, quando ela trabalhava como costureira de camisas na fábrica de confecções Otto, de Otto Aurich. Começaram a namorar quando ele propôs que ela terminasse com o namorado que ela tinha, que ele se casaria com ela. E assim foi feito, e o casamento aconteceu. Do fruto da união vieram três filhos, mas um foi perdido ainda bebê.

A aposentadoria chegou em 1990, aos 61 anos. Por opção, ele resolveu pendurar as ferramentas de pedreiro. Conta que a profissão sempre exigiu grande esforço físico. “Cheguei a atravessar a ponte Florentino Avidos com a bicicleta cheia de material de trabalho. Eram duas tábuas de um lado e duas do outro e se caísse, caía tudo no Rio Doce, e eu também. Só saía tarde do serviço, sempre entre 8h e 11 horas da noite. Foram muitas aventuras para trabalhar e imensos sacrifícios. Hoje tudo é mais fácil, mas antigamente não era assim”.

Ele agradece a Deus por ter parado de trabalhar sem nenhum problema sério de saúde. Gosta de vinho, de conhaque, limão, alho, verduras e frutas, e diz que não come muita gordura, carne vermelha, sanduíche e nem toma muito refrigerante. “Tomo muita água. Os amigos brincam comigo, dizendo que eu não fico velho”.

O ex-pedreiro comparou a Colatina que conheceu quando chegou aqui e a Colatina de hoje. “Está crescendo muito. Aqui é a minha cidade. Colatina é a minha terra. Sou natural de Santa Teresa, mistura de indígena e italiano, de uma família de 12 filhos, mas é daqui que gosto. Já quiseram me levar de Colatina para trabalhar em Vitória, São Paulo, Rio e Belo Horizonte, mas eu não quis. Prefiro ficar aqui, um lugar de muita qualidade de vida. Moro neste lugar desde 1950. Naquele tempo era bom, mas hoje também é”.

Informações à Imprensa:
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Eduardo Candeias / Katler Dettmann / Maria Tereza Paulino
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Texto: Maria Tereza Paulino
Foto: Juliana Fiorot

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